Dez horas da noite de uma sexta feira quente, estrelada. Lua cheia cintilando imponente, instigando a imaginação do faceiro Zé, outrora amargurado pelo amor não correspondido de uma colega de trabalho.
A dor de cotovelo teima em visitá-lo sem convite. As várias facetas deste quarentão emergem sorrateiramente durante o barbear. Sua mente baila entre o entusiasmo pela noite caliente na qual está prestes a se aventurar, e o momento exato em que sua musa lhe disse aquela frase que o fez recorrer ao Prozac na veia “Zé, o problema não é você, sou eu”.
Quando a imagem se desfaz, lá está aquele homem enfrentando a si mesmo diante do espelho levemente embaçado.
“Putzaaa vida, não tinha reparado que já perdi todo esse cabelo! Xiiii, se continuar assim to careca no meu jubileu”
Zé se recorda dos áureos momentos dos idos de 70, quando era figurinha carimbada nos bailes do Madame Satã.
Alto, magro feito pau de virar tripa de porco, cabelo engomado, bigodinho por fazer, calça boca de sino sempre em tons chamativos, camisa de seda com três botões abertos e um crucifixo dourado no pescoço, o homem era um terror entre a mulherada. Tanto que, aos 25 anos Zé já tinha cinco filhos, com cinco mulheres diferentes. Por isso ele tinha apelido de Zé da Pensão.
Depois que assistiu aos Embalos de Sábado a Noite, Zé parou de freqüentar a boca e passou a curtir disco music. Participou do show de calouros do Silvio Santos por duas vezes, e ficou famoso no bairro. Não por ter sido aprovado, mas por ter sido chamado de Lombriga bailarina pela Araci de Almeida.
Mas o Zé prefere se lembrar do cheiro do pós-barba Bozzano Alfazema que ele achava tiro e queda para seduzir suas presas noturnas.
Depois de lembrar de alguns romances furtivos, sentir-se um pomposo galanteador, ele volta ao presente e se dá conta da proeminente barriguinha. Lá vem o Zé e seu Putza Vida!
Quando criança, ainda na 3ª. Série do primário, Zé passou na venda do pai e na correria comeu três azeitonas com caroço e tudo. Era dia de educação física na escola. A mãe do Zé foi chamada, pois suspeitaram que ele estava com barriga d’água.
- Grávido ele não pode estar! – gritava o professor.
Não é preciso dizer que nunca mais o Zé comeu azeitona na vida.
Vestido como veio ao mundo, ele mira o espelho. Encolhe a barriga, faz pose de boxeador, dobra as pernocas, cara de mau, ou melhor, de lobo mau ávido por comer a chapeuzinho. Fica de lado, estufa o peito, passa uma toalha quente pelo rosto e diz confiante:
- Meu amigo, essa noite a gente vai se dar bem – ele sorri e seu aparelho dentário o faz parecer mais jovem. Zé ainda tem um dente-de-leite.
Durante o banho ele cantarola duas músicas dos Secos e Molhados. Sempre gostou do Ney Matogrosso, mas isso ele diz a poucos amigos.
Ele está tão otimista que, antes de sair de casa, contraria sua faceta Putza Vida e entorna dois copos de Dreyer, aquele que desce macio e reanima.
Agora é só decidir se vai dirigir seu Palio novinho em folha ou o nostálgico DKV laranja 1969, com bancos de couro marrom em duas tonalidades.
“Ah, se esse carro falasse” – ele pensa alto, e se convence – “É com você mesmo que eu vou”.
Feliz da vida, otimista e com os hormônios em ebulição, Zé cruza as avenidas da cidade até chegar ao Age of the Wolf, seu bar preferido.
Antes de passar as chaves às mãos do manobrista, um milhão de recomendações e um frio na barriga só de imaginar um arranhão no seu carango de estimação.
Ao entrar no bar, liga o radar à procura de uma vitima. Ainda é início de noite e as duas doses de Dreyer não permitem ao Zé se contentar com os trubufus. Ele quer produto de primeira qualidade, com sustância, como ele costuma dizer.
Encosta no balcão, chama o garçom – um velho conhecido – e pede uma cervejinha. No começo, dá uma de difícil, preferindo olhar para o telão que mostra clipes dos anos setenta. De rabo de olho – sempre alerta – nota alguns olhares em sua direção.
Está aberta a temporada de caça ao Zé. Mas quem será a caça e quem será o caçador ao final desta história?
Não percam a segunda e última parte da emocionante aventura do Zé Faceiro.